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A lembrança do Dr. José Manuel Pinto de Sousa

 

Quando eu era criança havia em Sernancelhe dois médicos. Já eram velhos.
Com o tempo que passou o mais velho morreu.
Como o meu pai tinha certa veneração pelo outro, o Dr. José Manuel Pinto de Sousa, fiquei com recordações dele, aliás foi quem me fez o parto.

Dos tempos de criança até aos quatro anos, altura que fui para Lisboa, as recordações prendem-se sobretudo com as minhas doenças, que lá me forçavam, bem contrariado, a recorrer aos seus serviços clínicos, devidamente acompanhado pela autoridade.

É que eu detestava médicos e consultórios; e o senhor não se pode dizer que fosse simpático. Ao contrário, era impaciente, irascível e resmungão.

Ficou-me atravessado por muitos anos o agravo de certo desabafo, que humilhou e feriu fundamente o meu orgulho. Foi o caso de ao começar a consulta, após os cumprimentos e apresentação do problema, da responsabilidade do meu pai, ele me ter perguntado para abrir as conversações:
- então, o que é que tu tens?  
Eu, que estava ali submetido e contrariado, rosnei, com a cara daquele bichinho do zoo que toca a sineta:
- Não tenho nada!
Ele não gostou, prosseguiu o que estava a fazer, creio que colocava luvas ou coisa parecida, e resmungou irritado:
- Não tens nada... nem juízo!?
O atrevimento caiu como uma ofensa grave na minha sensibilidade de garoto.
Pareceu-me tão mal aquele desaforo de colocar em dúvida o são juízo com que o Criador me havia dotado, e que já então era para mim motivo de satisfação, que não lhe perdoei.

Passaram muitos anos sem que me esquecesse da injúria.
Mas atrás de tempos vêm tempos e muito mais tarde às vezes encontrava o velhote na Vila da Ponte nas minhas férias de estudante de medicina, ainda ligado a umas consultas particulares cá na aldeia. A antiga animosidade não me perturbava o convívio.
Acontecia então

 com frequência que alguns antigos doentes que o encontravam até ainda há alguns anos, por distracção ou porque procuravam mesmo uma consulta de rua que os tranquilizasse das suas andanças pelos clínicos recém chegados a Sernancelhe pelo Serviço Médico à periferia em 1978, acabavam a falar com ele sobre as suas doenças, a mostrar-lhe as receitas, os medicamentos, os relatórios, os Rx, os electrocardiogramas, enfim, toda a parafernália dos agora chamados meios auxiliares de diagnóstico, e que não há muitos anos eram ou inexistentes ou impensáveis.
O bom velho olhava curioso e interessado para tudo aquilo, os medicamentos com nomes que já não lhe eram familiares, os tratamentos que os seus antigos doentes iam fazer à cidade, a diversidade de instrumentos e de técnicas que lhe eram estranhas, e no fim concluía filosoficamente para os circunstantes:- ?eles tratam-se à moderna, mas morrem todos à antiga...?Ficou-me o axioma, como expressão de antiga experiência e vera sabedoria".

Nunca mais o esqueci. E eis descoberto o segredo que me faz sorrir e seguir tranquilo sempre que fazem reparo ao meu obsoleto reaccionarismo, o meu radical desalinhamento com o progresso, a minha insanável incompatibilidade com as consultas rápidas dos tempos actuais.

É sempre a máxima do Dr. José Manuel Pinto de Sousa que me vem à memória.

Deixá-los! Bem podem viver à moderna, esfalfando-se todos os dias a correr atrás da modernidade, a salivar, de língua de fora...
no fim, morrem todos à antiga.
 

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